MONOGRAFIA


Uma Leitura da Estilização Paródica em Mário de Andrade

(SILVA, Eliana. Uma Leitura da Estilização Paródica em Mário de Andrade. Batatais/SP: UNICLAR, 1997 (Monografia de Conclusão do Curso de Letras das Faculdades Claretianas de Batatais/SP)

INTRODUÇÃO


 
Amar, Verbo Intransitivo foi o primeiro romance escrito por Mário de Andrade. Editado pela primeira vez em 1927, traz uma linguagem cheia de brasileirismos. Na década de 20 foi bastante elogiado, mas apesar disso é pouco procurado pelos leitores. Neste trabalho pretendemos fazer um estudo aprofundado, visto que o livro pertence à fase heróica do Modernismo.

Para tal desenvolvimento estudaremos dois tipos de intertextualidade, a paródia e a estilização. Essa Intertextualidade é colocada de maneira figural que busca um tema antigo e o coloca dentro da realidade de uma época. Para eficácia do estudo utilizaremos o conto O Peru de Natal.

O romance foi classificado pelo autor de "idílio", porém, será que realmente ele ocorre? Veremos a visão do autor sobre a sociedade. Quais seus valores? Quais seus conceitos? E a paródia e a estilização, quais suas relações com o romance?




CAPÍTULO 1


 
COMENTÁRIOS GERAIS SOBRE O AUTOR



 
“Os que amam sem amor
Não terão o reino dos céus

(Carlos Drummond de Andrade)


 

1.1              O Autor


 
Mário de Andrade Morais nasceu na cidade de São Paulo no ano de 1893 e morreu em sua casa na Rua Lopes Chaves, em São Paulo – (1945), aos 52 anos. Depois de cursar o grupo escolar e o ginásio, ingressou na escola de Comércio Álvares Penteado, mas uma briga com seu professor de português o fez abandonar a escola. Em 1911, entra para o Conservatório Musical de São Paulo, formando-se em piano. No ano de 1917, conhece Oswald Andrade de quem se torna amigo. Neste mesmo ano publica seu primeiro livro e “descobre” Anita Malfatti, transformando-se em uma das mais importantes figuras de nossa vida cultural.



1.1.1        Obras Principais



 
Há uma gota de sangue em cada poema, primeiro livro de Mário, publicado em 1917, um retrato da Primeira Guerra Mundial e mostra-nos o autor sob influência das escolas literárias, anteriores à Semana de Arte Moderna. Suas poesias obedecem às normas estéticas, como a metrificação e a rima, caracterizando aí o estilo de origem parnasiana.

Paulicéia Desvairada, poesia modernista, uma ruptura com todas as estruturas do passado. Sua inspiração para escrever esta obra foi à cidade de São Paulo, constatando seu provincianismo, a burguesia, a aristocracia, o proletariado, o Anhangabaú, o Largo do Arouche e o Rio Tietê, mostrando assim, uma cidade arlequinal. Dedicou esta obra ao seu grande mestre, seu Guia, seu Senhor: ele próprio, Mário de Andrade!

Amar Verbo Intransitivo – tema de nosso estudo, romance que o autor classificou de idílio. É um romance que penetra fundo na estrutura familiar da burguesia paulistana, sua moral e seus preconceitos, ao mesmo tempo em que aborda, em várias passagens, os sonhos e a adaptação dos imigrantes à agitada Paulicéia.

Macunaima, talvez, a criação máxima de Mário, pois cria um herói sem caráter, e, a partir desse anti-herói, o autor enfoca o choque do índio amazônico (que nasceu preto e virou branco – síntese do povo brasileiro) com a tradição e a cultura europeia na cidade de São Paulo, valendo-se para tanto de profundos estudos de folclore. Macunaima, no seu “pensamento selvagem”, faz as transformações que ele quer: um inglês vira o London Bank, a cidade de São Paulo vira um bicho-preguiça e dessa forma vai colocando todas as estruturas de pernas para o ar. Macunaima é o próprio “herói de nossa gente”, como faz questão de afirmar o autor na primeira página do romance, procedimento contrário ao dos autores românticos, que jamais declaram a condição de herói de seus personagens, apesar de os criarem com essa facilidade.

Em toda sua obra, Mário de Andrade lutou por uma língua brasileira que estivesse mais próxima do falar do povo, sendo comum em seus textos, o início da frase com um pronome “oblíquo, o “si”, o “quasi”, o “guspe”, em vez de “se”, “quase”, “cuspe”. Os brasileirismos e o folclore tiveram a máxima importância para o poeta, como bem atestam os livros Clã do Jabuti e Remate de Males. Ao lado disso, suas poesias, romances e contos revestem-se de uma nítida crítica social, sempre atacando a alta burguesia e a aristocracia.


 
1.2 Resumo da Obra: “Amar, Verbo Intransitivo”

O romance começa quando Sousa Costa resolve contratar uma professora de amor para seu filho Carlos. Contrata, então, Elza, uma mulher madura com 35 anos de idade e imigrante alemã, professora de línguas e de piano.

Elza chega à casa de Vila Laura como governanta e como professora. Mas, na realidade acaba sendo uma espécie de mãe de todos, o verdadeiro ponteiro do relógio da família Sousa Costa. Ela é uma defensora de sua profissão, apesar de classificá-la como uma de suas fraquezas, age de forma amplamente correta, pois encara seu trabalho com dignidade, como uma outra profissão qualquer.

Fräulein, como é chamada por todos, cuida da instrução dos filhos de Sousa Costa e nas suas horas de folga aproveita para ler alguns autores expressionistas alemães.

Em princípio, Carlos não se interessa muito pelas aulas e nem por Fräulein, porém com o passar do tempo, entre uma aula e outra, ele passa a se interessar por tudo que se refere ao alemão que vai de revistas até sobre livros de história. Passa a desejar ficar mais tempo com Fräulein. Aos poucos ela vai seduzindo-o, no entanto o relacionamento entre os dois vai ficando cada vez mais sério. Carlos, ao mesmo tempo que deseja Fräulein, também sente um pouco de medo. Mas, ela atinge seu objetivo e tudo acontece.

Todavia, para surpresa de Fräulein, ela não foi a primeira mulher de Carlos, e isso a deixou um tanto decepcionada, pois afinal nunca tinha vivido esta experiência antes, se levarmos em conta que ela sempre fora a primeira de muitos. Carlos, meio constrangido, e sem saber que Fräulein é uma professora de amor, disse ter feito aquilo uma única vez, levado por amigos. Apesar de tudo, Fräulein decidiu continuar sua missão, pois tinha ainda, muito o que ensinar a Carlos e continuaram se encontrando.

Além de exercer sua profissão, Fräulein, também sonhava em encontrar um homem maravilhoso, culto, e com quem ela pudesse se casar, construir um lar e viver em sua terra natal. E numa viajem à Barra da Tijuca, Fräulein se encantou pela paisagem, sentiu tanta emoção que podia ficar ali contemplando aquela beleza natural por horas, dias ou séculos sem se dar conta do tempo e num determinado devaneio chegou a pensar que o homem sonhado pudesse ser Carlos. No entanto, ele não se importava nem um pouco com a natureza, não tinha sensibilidade suficiente para tanto, e só tinha olhos para sua amada.

E assim, sucedeu, até que Sousa Costa, incomodado com tal situação, conversou com Fräulein e disse que chegara a hora de ir embora. Ela, porém, exigiu contar a verdade a Carlos, só que Sousa não queria de fato. Todavia, concordou que essa era a melhor solução e que com isso poderia ensinar e prevenir o filho contra os possíveis perigos da vida.

Sousa Costa, ao surpreender Carlos com Fräulein, disse-lhe que aquilo não devia mais acontecer e que Fräulein iria embora para sempre e que era melhor esquecê-la. Carlos ficou transtornado, fora de si, arrasado, seu pai acabou ficando com pena e ao invés de contar a verdade preferiu apenas insinuá-la. Carlos não tinha ouvidos para nada, só pensava nela e tentou falar com Fräulein de todas as formas, chegou a esmurrar a porta do quarto dela, sem nenhum sucesso.

Dona Laura, vendo o desespero do filho, o consolou. Ela, ao mesmo tempo que se sentia feliz pela partida de Fräulein, o que colocaria um fim naquela situação constrangedora, também lamentava, pois ia ser difícil encontrar uma outra governanta que se familiarizasse e de adaptasse à família tão depressa quanto Fräulein.

Enfim, no dia seguinte, Fräulein partiu, antes, porém, despediu-se de Carlos, uma despedida dolorosa, repleta de tristezas e sofrimentos de ambas as partes. Fräulein foi para a cidade de Santos, pois não queria permanecer na mesma cidade que Carlos. Ele continuou triste por muito tempo, não conseguia esquecê-la, até que chegou à conclusão de que Fräulein não merecia tanto sofrimento por ter ido embora e voltou a sua vida de antes, a praticar esportes, a se divertir como sempre. Fräulein, ao rever Carlos em uma festa em que acompanhava um outro rapaz, concluiu que realmente não nascera para o amor, mas sim, para ensinar a amar. Considerava-se uma mãe de amor!



CAPÍTULO 2


A TEMÁTICA DO IDÍLIO


 
2.1 O Conceito de Idílio



Idílio é um tema que restaura a complexidade antiga e o tempo folclórico. Desde muito tempo atrás e até a atualidade surgiram diversos tipos: os de tipo puro que são o idílio amoroso, o idílio dos trabalhos agrícolas, o idílio dos trabalhos artesanais e o idílio familiar. Há, também, os tipos mistos com predominância de alguns elementos tais como: o amor, o trabalho e a família.

Existem algumas diferenças entre os tipos no que se refere à sua natureza, como por exemplo: as ligações com a realidade, o subjetivo, o tema, a sublimação, etc.

Apesar de ocorrer essas diferenças, todos os tipos se identificam sob um mesmo ângulo, ou seja, exerce uma relação geral com a unidade do tempo folclórico. Neste ponto caracteriza-se a unidade de lugar, em que é estabelecido um elo da vida com os acontecimentos do mundo, sempre com ênfase na unidade local, podendo ser uma paisagem, a terra natal, o habitat, etc. A vida idílica é, portanto, inseparável da sua história, o local onde viveram seus antepassados e onde viverão seus herdeiros. É um mundo pequeno e limitado, mas que é autossuficiente. A vida segue um curso cíclico no tempo que vai do nascimento à morte.

Na vida idílica há uma limitação à realidade básica da vida, em que o amor, o casamento, o trabalho, a comida, a bebida, a idade, o nascimento e a morte são os tipos básicos, formando assim, o microcosmo do idílio.

O idílio se funde estritamente com a vida humana, com a natureza, com a unidade de lugar, com a linguagem e com os acontecimentos.

O idílio amoroso não obteve sucesso em sua forma pura, porém ao se unir com o idílio dos trabalhos agrícolas deu origem ao romance regionalista. Também não é comum encontrar o idílio familiar de forma pura, mas sua união com o idílio dos trabalhos agrícolas obteve um enorme significado, em que o elemento trabalho agrícola cria um elo com a realidade, ou seja, é a natureza em comunhão com a vida humana.

As crianças são muito importantes no idílio familiar, pois representam a sublimação do ato sexual, a concepção, a renovação da vida e a morte.

O idílio influenciou a evolução do romance moderno, manifestando-se por cinco tendências:

- Romance Regionalista:


... No romance regionalista, o próprio processo de vida é ampliado e detalhado (o que é indispensável nas condições do romance); nele se destaca o lado ideológico – língua, crenças, moral, costumes – e além disso ele também é mostrado em ligação ininterrupta com a localidade determinada. No romance regionalista, como no idílio, todos os limites temporais estão abrandados e o ritmo da vida humana concorda com o ritmo da natureza. (BAKHTIN, p. 343, 1988).


- Romance de Goethe: a destruição do idílio.


... A destruição é apresentada sobre o fundo do centro capitalista de um idealismo ou de um romantismo provincianos dos personagens, que não são de modo algum idealizados; também o mundo capitalista não é idealizado: revela-se a sua imunidade, a destruição no seu interior de todos os princípios morais (constituídos em estágios anteriores da evolução), a desagregação (sob influência do dinheiro) de todas as relações humanas de outrora – amor, família, amizade, a degeneração do trabalho criativo do sábio, do artista, etc. O homem positivo do mundo idílico torna-se cômico, lamentável e supérfluo, ou ele perece, ou transforma-se num abutre egoísta. (BAKHTIN, P. 341, 1988).


- Romance de Rousseau:


A linha de Rousseau teve um significado profundo no progresso. Ela está isenta da limitação do regionalismo. Nela não há o desejo desesperado de conservar os vestígios moribundos dos micromundos patriarcais (provincianos) e, ademais, fortemente idealizados. Ao contrário, a tendência rousseaniana, ao dar uma sublimação filosófica à entidade antiga, faz dela um ideal para o futuro e, antes de mais nada, vê o motivo e a norma de uma crítica da situação da sociedade de então. Essa crítica é, na maioria dos casos, dupla: ela está voltada contra a hierarquia feudal, a desigualdade, o absolutismo arbitrário, as mentirosas convenções sociais (o convencionalismo), mas ela também está voltada contra a anarquia de interesses e contra o indivíduo burguês alienado e egoísta. (BAKHTIN, p.338, 1988).


- Romance familiar e de gerações:


Os aspectos idílicos estão esporadicamente espalhados no romance familiar. Aqui sempre ocorre uma luta entre a “estrangeirice” desumana nas relações com as pessoas e as relações humanitárias sobre um fundo ora patriarcal, ora abstratamente humanista. No vasto mundo gelado e estrangeiro estão espalhados recantos determinante também no romance de gerações (Thackeray, Freitag, Galswrthu, Thomas Mann). Mas aqui o tema principal mais freqüente é a destruição do idílio e das relações idílicas familiares e patriarcais. (BAKHTIN, p.340, 1988).

- Romances de diferentes variedades:



O último aspecto da influência do idílio se exprime pela penetração de alguns elementos do conjunto idílico no romance. O homem do povo frequentemente tem origem idílica dentro do romance. (...) O homem do povo surge como portador da atitude sábia para com a vida e a morte, perdida pelas classes dominantes (Platon Karatáiev, de Guerra e Pas de Tolstói). Sua imagem relaciona-se frequentemente, a uma descrição particular da comida, da bebida, do amor, da procriação. Ele mesmo é o portador do eterno trabalho produtivo. Frequentemente, destaca-se em primeiro plano uma incompreensão sábia (e reveladora) do homem do povo face à mentira e às conveções. (BAKHTIN, p.342, 1988).


No livro “Amar, Verbo Intransitivo”, Mário de Andrade apresenta o idílio na figura de Fräulein e no ambiente familiar dos Sousa Costas.

Ele classificou esse romance de idílio, e o fato de ele próprio classificá-lo assim, já nos dá uma impressão de gozação.

Segundo Edward Lopes: “... o espaço do idílio surge da imitação da descrição-tipo do lócus amoenus da tradição clássica européia...” (LOPES, p.49, 1993), é a prefiguração universal de um tipo de lugar ameno como: uma paisagem formada por um lugar natural que pode ser um campo, um monte ou um bosque, etc., um lugar idealizado composto de um percurso figurativo infinito, sem determinação ou espaço ou do tempo.



A idealização ocorre quando apagamos da descrição todas as marcas pessoais da instância da enunciação, de modo que, deixando de estar aderida ä realidade de um “eu-aqui-agora” que o viva... no caso do lugar ameno, o cenário do idílio de qualquer um, em qualquer tempo, e a esse título, estocado como um esquema de entendimento, um dispositivo da competência espacial mítica das pessoas. (LOPES, p.50, 1993).


No idílio de Mário há um “eu-aqui-agora”, daí já podemos perceber a inversão ocorrida. O autor provoca a destruição do idílio, inverte todo o seu sentido original. Coloca a família dos Sousa Costas numa casa urbana, cercada por uma linda paisagem, fazendo-nos lembrar de um ambiente idílico. O ambiente urbano traz uma sociedade burguesa e capitalista colocando de lado o clima ameno do idílio.

A família burguesa valoriza a propriedade e o trabalho alienado, contradizendo, assim, os conceitos do idílio que valorizava a terra dos ancestrais e o gosto pelo trabalho agrícola, em que se cultivava a terra para seu próprio sustento.

2.2 Estrutura Familiar

O idílio é apresentado no contexto familiar. E sob um pano de fundo a sociedade burguesa de São Paulo, representada pelos Sousa Costas que são uma família burguesa tendo na figura de Felisberto o seu exemplo mais típico dos chamados “novos ricos”. Dona Laura é uma esposa tradicional, vive para a família, isto é, cuida da casa e dos filhos, os quais são criados no estilo burguês, estudam línguas, piano, etc., visto que Carlos estudava inglês desde pequeno.

A moral também faz parte da estrutura familiar. No século passado era tradicional o pai levar seu filho para iniciar sua vida sexual. No livro “Amar, Verbo Intransitivo” acontece de maneira diferente, pois, ao invés de Felisberto levar seu filho, fez exatamente o contrário, contratou uma professora de amor e a trouxe para dentro de sua casa, dando a impressão de quebra de um dos tabus de nossa sociedade, porém, vale ressaltar que Sousa Costa, com a conivência da mulher, escondia a verdadeira função de Fräulein na casa, fazendo com que todos acreditassem que ela era somente a governanta e a professora de seus filhos. Assim viviam, fazendo transparecer aos outros uma família feliz e acolhedora, mostrando-se presa aos valores sociais tradicionais.

A família dos Sousa Costas era uma família emergente que tinha na criação de gado caracu sua maior fonte de lucros. Como os “novos ricos” tentavam ser como os burgueses tradicionais da época. E com isso, acabavam vivendo de aparências e uma realidade que não era real.

... Procedem como o rico-de-repente que no chá da Senhora Tal, família campineira de sangue, adquire na epiderme do fraque a macieza dos tradicionais e cruza as mãos nas costas – que importância! – pra que a gente não repare na grossura dos dedos, no quadrado das unhas chatas. Neto de Borbas me secunda desdenhoso que badalo e mãos ásperas, nem por isso deixam de existir, ora! O badalo pode não tocar e mãos se enluvam. (ANDRADE, p.50, 1986).

2.3 O Figural (O Idílio e o Mito de Édipo)



O figural é um tema antigo que é colocado dentro da realidade de uma época. É o que acontece na obra Amar, Verbo Intransitivo, que, inserido num contexto atual, retoma o idílio amoroso.

O mesmo acontece no conto O Peru de Natal, também de Mário de Andrade, que retoma o Mito de Édipo.



2.3.1 O Peru de Natal



Após a morte do pai, sucedeu o primeiro natal familiar que acabou sendo de maneira decisiva para a felicidade da família. Era uma família burguesa que não conhecia as dificuldades econômicas, mas que todos viviam em função do pai, uma pessoa de natureza cinzenta, desprovido de lirismo, acolchoado no medíocre.

Foi, então, que um de seus filhos que apenas gostava do pai mais por instinto de filho do que espontaneidade de amor decidiu fazer um peru de natal, não para os parentes, pois odiava a parentada, mas sim, para a família apenas.

Nos natais anteriores, a mãe só cozinhava para os outros e peru que é bom somente as sobras do dia seguinte. A ceia se dava após a Missa do Galo. Depois de convencer a todos de que deveriam fazer a festa, comprou o peru, as nozes, as castanhas, a cerveja, muitas cervejas, pois a mãe adorava cerveja.

Durante a ceia, eis que surge a figura do pai, e o que antes era alegria se transformara num ato fúnebre. Nesse momento, o filho odiou o pai por isso. Decidiu não falar mais no peru, pois cada vez que tocava no peru a presença dele era mais forte. O tempo foi passando e aos poucos a imagem do pai foi desaparecendo lentamente, até que a alegria tomara conta de toda a família, enfim, o pai era apenas uma lembrança, afinal de contas ele trabalhara a vida inteira para a família. A partir daí sucedera o natal mais feliz da história daquela família. O peru é uma substituição do pai e o narrador alegra-se com sua morte.

2.3.2 O Mito de Édipo



Édipo foi abandonado por seus pais e criado por um pastor. Peregrinou por muito tempo e numa dessas peregrinações matou um homem, sem saber que se tratava de seu pai. Depois, salvou a cidade de Tebas da maldição da Esfinge, ganhando com isso, o reino de Tebas e como esposa sua própria mãe. Reinou com muita firmeza a aceitação pelo povo, até que uma epidemia matou centenas de pessoas e ao consultar um advinha, descobriu que para terminar a epidemia ele teria que expulsar do reino o assassino do ex-rei Laio. E, após uma investigação, Édipo descobriu que Laio era seu pai e ele, seu assassino. Diante disso, furou os próprios olhos, ficando cego, passando a vagar pelo mundo como um vegetal sofrendo por ter cometido um parricídio[1].

O idílio, “amor sublime” é retomado no livro em forma de paródia, retratando num “eu-aqui-agora”, em que não há sublimação do amor, apenas interesses capitalistas. A paródia, que veremos no próximo capítulo, mostra uma inversão de sentido, em que o autor a utiliza para retratar a atual realidade de uma sociedade extremamente burguesa, criticando os valores sociais tradicionais.

O conto O Peru de Natal retoma o mito de Édipo, busca no passado, através da estilização, e o coloca na realidade atual de uma época, o ódio pelo pai e o amor extremo à mãe, utilizando aí os estudos de Freud sobre o comportamento do adolescente. O filho ama tanto a mãe que acaba por ter ciúmes do pai, passando a odiá-lo. Através da estilização ele mostra o complexo de Édipo. A sociedade burguesa, que é, acima de tudo, patriarcal.



CAPÍTULO 3



A INTERTEXTUALIDADE


3.1 Paródia e Estilização



Modernamente a paródia se define através de um jogo intertextual... (SANT’ANA, p.12, 1991).


... Escrevendo e reescrevendo este texto há mais de anos, me pareceu que a paródia só pode ser estudada se, no mínimo a estudarmos ao lado não só da estilização, mas também da paráfrase e da apropriação. (SANT’ANA, p.5, 1991).


3.1.1 Paródia

Texto original de Gonçalves Dias, “Canção do Exílio”.

Minha terra tem palmeiras

Onde canta o sabiá,

As aves que aqui gorjeiam

Não gorjeiam como lá.

Texto parodiado por Jô Soares, “Canção do Exílio às Avessas”.

Minha Dinda tem cascatas

Onde canta o curió

Não permita Deus que tenha

De voltar pra Maceió. (SOARES in Veja, p.15, 1992)

Ora, o que o texto parodístico faz é extamente uma reapresentação daquilo que havia sido recalcado. Uma nova e diferente maneira de ler o convencional. É um processo de liberação do discurso. É uma tomada de consciência crítica. (SANT’ANA, p.31, 1991).

Percebe-se que o texto criado por Jô Soares é uma inversão completa do sentido do texto original, é, portanto uma paródia da Canção do Exílio, cujo texto parodiado tem como título Canção do Exílio às Avessas, em que faz uma gozação, criticando os acontecimentos políticos da época sobre o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo.


3.1.2 Estilização



Texto de Cassiano Ricardo, “Um dia depois do outro”.

Esta saudade que fere

mais do que as outras quiçá,

sem exílio nem palmeira

onde cante um sabiá...

Se na paródia houve uma inversão completa, aqui ocorreu um desvio considerável com relação ao texto de Gonçalves Dias, mas repare que o sentido é próximo. Pois, a saudade é descrita na ausência da palmeira e do sabiá, mas não há traição do sentido original.

Diante desta visão global sobre o que é paródia e estilização, podemos dizer que Amar, Verbo, Intransitivo é uma paródia do idílio amoroso e o Peru de Natal uma estilização do mito de Édipo.

Pois, como já vimos anteriormente, há uma inversão do sentido original do idílio que foi retomado no livro, em que há uma contradição entre o ambiente familiar idílico e o ambiente familiar dos Sousa Costas. É uma oposição entre o amor sublimado do idílio e o amor racionalizado e instintivo.

O ambiente familiar idílico é um ambiente ameno ao lado da natureza e o convívio familiar basta para a felicidade; já no idílio de Mário, o ambiente é marcado pela agitação da vida urbana, numa sociedade burguesa, em que o poder do dinheiro, o egoísmo, a ganância, o jogo de interesses predominam. Tudo isso contribui para a destruição da serenidade e da simplicidade do idílio.

O conto O Peru de Natal completa a visão da sociedade que o autor tem, principalmente, com relação à figura do pai. Mostra a sociedade patriarcal, onde não há amor, nem sensibilidade é uma oposição entre amo/ódio; razão/paixão.

A destruição do idílio acontece a partir da profissão de Fräulein que o tem apenas em seu Deus encarcerado, nas concepções expressionistas do homem-do-sonho. A realidade criada baseia-se no preconceito, na ascensão da burguesia e nos valores de uma sociedade patriarcal e capitalista, invertendo assim, todos os conceitos de sublimação do amor idílico.



3.2 Diálogo entre os textos



A intertextualidade ocorre quando um autor se utiliza de alguns conceitos de outro autor em sua obra.

Da tradição literária foram retomados dois intertextos: o mito de Édipo em O Peru de Natal e o idílio em Amar, Verbo Intransitivo.

O autor recorreu à tradição para mostrar o comportamento social de uma sociedade burguesa, utilizando-se para tanto, de duas formas de intertextualidade, a paródia e a estilização.

Mário utiliza também, as digressões, para quebrar a expectativa do leitor, para desviar sua atenção. Faz do narrador um personagem, usando a metalinguagem para interferir no próprio texto.

Se eu contasse tudo, a verdade, mesmo dosada, viria catalogar este idílio entre os descaramentos naturalistas, isso é impossível, não quero. (ANDRADE, p.129, 1986).

3.3 Um Romance Polifônico



A questão da polifonia concerne ao fato de que várias vozes se apresentam no interior de um discurso. Essas vozes aparecem objetivadas ou não. (FIORIN, p.62, 1996).



Essa variação de vozes é colocada sob vários pontos discordantes, reforçando a ideia de paródia do idílio amoroso, demarcado no texto pelo narrador como um todo. A monofonia é utilizada para mostrar a voz oficial da classe dominante, sua ideologia e seus valores. É identificada nas falas do senhor Sousa Costa.

O Peru de Natal traz uma estilização paródica, se interligando com Amar, Verbo Intransitivo e numa visão polifônica mostra a sociedade burguesa de São Paulo.



CAPÍTULO 4

UMA LEITURA DE AMAR, VERBO INTRANTISITO



4.1 Pessoa, Tempo, Espaço ou Configurações Discursivas



A narrativa do livro é construída através de uma debreagem enunciva, discurso na 3ª pessoa gramatical: “Elza viu ele abrir a porta da pensão”. (p.49).[2] Tempo do então e espaço do lá. O discurso é objetivo.

O tempo é marcado pela volta ao passado, em que é retomado um texto antigo (idílio) e colocado num “eu-aqui-agora”. Sabemos que a narrativa pertencia ao século XX, “Estávamos no primeiro decênio deste século que deu no vinte” (p.61), e Fräulein chega à casa dos Sousa Costas numa terça-feira, “Terça-feira o táxi parou no Portão da Vila Laura”. (p.49).

Outro fato marcante para sintonizarmos o tempo da narrativa é a imigração, representando no texto pelas personagens “Fräulein” e o “criado japonês”.

O autor mostra também, a preferência das famílias burguesas por criados estrangeiros, é a adaptação dos imigrantes à nossa Terra:



... no Brasil é assim mesmo e nada se pode melhorar mais! Os empregados brasileiros rareiam, brasileiro só serve pra empregado-público. Aqui o copeiro é sebastianista quando não é sectário de Mussolini. Porém os italianos preferem guiar automóveis, fazer a barba da gente, ou vender jornais. Se é que não partiram pro interior em busca de fazendas por colonizar (...) Porém se o copeiro não é facista, a arrumadeira de quarto é belga. Muitas vezes suíça. O encerador é polaco. Outros dias é russo, príncipe russo. (ANDRADE, p.96, 1986).

O espaço é reconhecido pelos locais por onde transcorre a narrativa, deixando claro que se trata da cidade de São Paulo, identificado pelo Bairro Higienópolis.



Bem diferente dos quartinhos de pensão... Alegre, espaçoso. Pelas duas janelas escancaradas entrava a serenidade rica dos jardins. O olhar torcendo para a esquerda seguia a disciplinada carreira das árvores na avenida. Em Higienópolis os bondes passam com bulha quase grave soberbosa, macaqueando o bem-estar dos autos particulares. É o mimetismo arisco e irônico das coisas ditas inanimadas. São bondes que nem badalam. (ANDRADE, p.50, 1986).

O livro faz parte da escola literária Moderna, escrito por volta de 1923 e publicada em 1927, data de sua primeira edição. Época em que as atenções se voltavam para a Semana de Arte Moderna, na qual Mário de Andrade era um dos destaques. A obra retoma um tema antigo e o joga num tempo atual, e, de uma forma irônica, mostra a iniciação sexual de um adolescente, a burguesia paulistana, o crescimento industrial, os novos ricos e a imigração.

Os modernistas representavam em suas obras os acontecimentos sociais como: a discriminação da mulher, a adaptação dos imigrantes que traziam para nosso país a cultura de outros países, os tabus e os valores sociais tradicionais.
           

CAPÍTULO 5



O PERU DE NATAL E AMAR, VERBO INTRANSITIVO

Mário utilizou-se de dois intertextos, o idílio e o mito de Édipo, para mostrar, através da paródia em Amar, Verbo Intransitivo em O Peru de Natal, a sociedade burguesa e patriarcal, da cidade de São Paulo.

Amar, Verbo Intransitivo. Os modernistas costumavam representar em seus livros os acontecimentos políticos de uma época. Mário, por ser modernista não foi diferente, com Amar, Verbo Intransitivo. Retoma um texto antigo, o idílio amoroso e o coloca numa época atual para denunciar a sociedade burguesa da época, onde o crescimento da burguesia colocava de lado os sentimentos em pró da matéria, o amor sublimado do idílio dá lugar ao amor por interesse. A vida simples dá lugar ao agitado ambiente da vida urbana. O preconceito e a discriminação da mulher estão cada vez mais intensos, a adaptação dos imigrantes, tornando o país miscigenado, surgindo, assim, sua nova identidade. A sociedade burguesa, representada pela família Sousa Costa, mostra uma felicidade artificial. Mostra o “idílio” ao nível do parecer como uma família feliz, harmoniosa e satisfeita, mas no nível do ser, é exatamente o contrário, uma família que tem como chefe Felisberto, um homem ambicioso, sem sentimentos, vê o sexo apenas como reprodução e prazer para o homem. Quer fazer de Carlos seu herdeiro. Entre Felisberto e Dona Laura não há carinho e muito menos amor. A família vive apenas no nível do parecer, dando a impressão aos outros de uma família unida e feliz, mas que ao nível do ser isso não acontece. Carlos provavelmente será um Sousa Costa e foi cuidadosamente treinado pelo núcleo familiar.

O Peru de Natal traz à tona o complexo de Édipo, fazendo referência aos estudos de Freud sobre o comportamento dos adolescentes, em que o filho ama a mãe de tal maneira que acaba por odiar o pai, pois deseja a mãe só para ele. Quando o pai morre o filho resolve dar uma festa no Natal, e fazer de sua mãe uma espécie de convidada especial. De uma certa forma, os dois textos dialogam no eixo intertextual horizontal e o filho transforma o pai morto em uma grande festa.

No contexto destes dois textos, está de maneira implícita, a sociedade, com todos os seus valores e tabus. A paródia mostra a sociedade tal qual ela é.

Os textos mostram a visão modernista do autor com relação à sociedade e à figura do pai. Um pai que contrata uma professora de amor, com a conivência da mulher, para iniciar sexualmente seu filho, mostrando toda a intransitividade do verbo. No outro, um pai de natureza cinzenta, sem lirismo, acomodado e medíocre. Ambos cercados pelo poder do dinheiro, e por uma sociedade cada vez mais capitalista e egoísta, na qual prevalece o ódio na cena familiar sem qualquer sentimento de amor puro e sublime.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tudo que fazemos na vida é com alguma intenção, senão não teria razão de ser. Os poetas quando escrevem têm eles sua intenção, os modernistas têm como finalidade denunciar, em suas obras, suas ideologias e opiniões com relação à sociedade e seus valores. Mário de Andrade não é diferente, ao mostrar sua ironia classificando de “idílio” o Romance Amar, Verbo Intransitivo.

Assim, foi objetivo desta monografia fazer um estudo para mostrar através da paródia o pano de fundo que é a sociedade burguesa representada por uma família emergente, contaminada pelo estilo burguês. Mostra a intransitividade do verbo não na figura de Fräulein, pela sua profissão, que idealizava um idílio baseado nas concepções expressionistas de homem-do-sonho. No entanto, a realidade e os valores sociais de uma sociedade corrompida pelo poder do dinheiro foram os maiores oponentes para a realização do idílio. O autor, no final do livro, quando da partida de Fräulein diz: “E o idílio de Fräulein realmente acaba aqui. O idílio dos dois. O livro está acabado”, porém, na verdade a história continua, continua para mostrar que aquele idílio jamais seria possível. Carlos, na verdade, nunca amou verdadeiramente Fräulein, aliás, a ninguém, era frio de sentimentos, exatamente como o pai.

A paródia, que tem como característica a comicidade, é vista em primeira instância no título do livro, e comprovada pelo contexto aprofundado da obra. A sátira do idílio é marcada pela inversão dos conceitos do idílio amoroso classificado como amor sublime, num lugar ameno e tranqüilo. No livro, este idílio é apresentado em um ambiente urbano, marcado pelos conceitos de uma sociedade tradicional burguesa, sufocando toda a sublimação do amor, prevalecendo o amor programado, sem sentimentos e marcado pelo jogo de interesses.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


 
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[1] Pessoa que mata o próprio pai.
[2] Todas as páginas citadas neste capítulo pertencem à Amar, Verbo Intransitivo.